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Pedro Cabrita Reis, com a série Cidades Cegas (1999), apresenta construções rudimentares na sugestão de abrigos, lugares no limite das necessidades de sobrevivência. Como se, á imagem do homem primitivo, um indivíduo construísse o seu abrigo com os materiais que encontrasse, estas casas/objecto parecem evocar uma ideia de auto-construção, de arquitectura sem projecto, ou, mesmo, a evocação de um tempo anterior á ideia de arquitectura, negação da arquitectura ou sua essência primordial. Aqui, os desperdícios, os lixos, das cidades seriam os correspondentes dos paus, das pedras, das folhas. E, assim, nestas cidades, a paisagem será o resultante dos resíduos do artifício, como se estes compusessem uma nova natureza. E, no seu contexto de obras de arte, Cabrita Reis liberta-as de qualquer sofisticação estética, evocando a ideia de arte na essencialidade do fazer, no seu sentido mais arcaico de artefacto. Ao mesmo tempo, associa o adjectivo cegas a uma objectualidade prosaica . Sendo cegas estas cidades, sendo cegos estes objectos, estes parecem estar confinados à sua mera objectualidade, vedada que está a percepção do mundo exterior. Conceptualmente, esta coisificação da ideia de cidade, gera a possibilidade de imaginar uma cidade sem gente, e, simultaneamente, a ideia de uma obra onde é diluída a presença de um autor. De facto, estes objectos, podendo ser encarados como artefactos rudimentares, mais parecem ter sido encontrados do que feitos. E esta ideia é reforçada quando a assinatura de Pedro Cabrita Reis num dos objectos mais parece sugerir a imagem de um grafitti. De certa forma, a assinatura que tradicionalmente é registo gráfico de uma autoria, identificação de uma subjectividade individual, como grafitti, adquire a mesma natureza dos desperdícios, matérias primas daqueles objectos. E gera a sensação de que o próprio artista adquire a natureza objectual destas construções, sintetizando, assim, tudo o que está envolvido num processo criativo à mais crua objectividade.
António Olaio
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